sexta-feira, novembro 29, 2013

Tão só



“E ela ainda é tão só…”, sussurrava o rádio naquela madrugada insone de verão em que ela fora surpreendida por todos aqueles pensamentos que quase engoliam sua mente. Ela não sabia onde iria parar dentro de si. Todas aquelas lembranças que agora saíam de seus olhos e se esparramavam pela cama se misturaram à sua confusão e agora ela já não conseguia se encontrar. Abraçou a solidão e deitou.
Nunca havia se sentido tão só em toda a sua vida. Doía toda vez que estendia o braço na cama e se deparava com a saudade e com lembranças que nunca dormiam. O que havia de tão errado com ela, afinal? Talvez o seu vazio fosse impreenchível, talvez ela fosse incompatível, talvez o amor lhe fosse impossível. Chorou.
Do amor ela nada sabia, na verdade. Tudo o que tivera até então não passava de paixões, de ilusões, de desejo, de expectativas não correspondidas. Sabia que, no fundo, todos os seus amores eram muito rasos — e, mesmo assim, ela havia mergulhado. “Até tu?”, perguntava toda vez que alguém desfazia seus planos e partia de sua vida para nunca mais voltar. Sim, até ele, até aquele que parecia tão sincero e tão apaixonado e tão confiável e tão querido e tão tudo mais que a gente vê quando ama. Sim, até ele, todos. “Eu não quero alguém que me complete, basta que me deixe inteira quando for embora”, dizia enquanto livrava seus olhos do pesar que deles escorria.
Tantas vezes fora aprisionada na mais alta torre de babel esperando ser salva por seu príncipe, vivera verdadeiros contos de fadas em castelos de cartas que desabaram ao mais suave toque, tivera uma vida de rainha em palácios tais quais o de Nero. Ruínas de amor, destroços de felicidade, pedaços do que um dia fora seu mundo.  
“Moldar um amor delicado e resistente não é fácil”, concluía ela ao pensar sobre seus amores arruinados. Assim como Ícaro queria as asas, ela queria um amor de cera que não derretesse sob o sol.
O rádio agora murmurava alguma música qualquer que se perdia na imensidão daquele quarto quase que vazio. Exausta, ela dormiu para parar de pensar, para viver em sonho, para não mais sentir. E a solidão a abraçou mais forte do que nunca. 

Daniela Lusa


Partir



Ele gostava de sonhar o impossível. Pra ela, a realidade era perfeita.
Ele sonhava com o toque de pessoas que nunca viu. Ela delirava com as digitais dele, no corpo dela.
Ele viajava entre cores, sensações e perfumes que nunca sentiu. O abraço dele era o lugar preferido dela no mundo.
Cansada de se desfazer, ela partiu. Não se pode competir com a imaginação de uma pessoa.
E então, o toque, o perfume, cores, sensações e colo dela, era tudo o que ele queria. Tarde demais.

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