domingo, abril 28, 2013

Coração sem jeito


"Acho que eu não vou te deixar nessa tarde. E aceito. Sigo fragmentando seus rastros, seus cílios: argumentos que fazem durar nesse olhar-toque-vento a minha versão mais bonita – de você, que mal sabe, mal arde, mal segue. Sigo maculando a tua parte fina, teu eu coalhado que atravessará e se espalhará no meu quarto, num gole azedo de pensamento. Você ainda caminhará sobre sinais importantes, dentro das conversas engasgadas. Resistirá ao outono e doerá macio no inverno. Subsistirá. E será a minha referência mais ampla de abandono. Deixo-te secar em mim para que reste apenas o casco frágil das tuas falas. De tudo que fomos, fico com o que ferve sem sentido, sem voz, sem pele. Sei que não mereces esse sorriso que se abre quando te lembro mas, não o impeço. Não vou te deixar nessa tarde. Não nessa tarde. Não nesse verso. Deixo-te assim que o nunca ficar mais perto. Meu tempo ainda te escolhe em silêncio. Não te percebo entrando, se refazendo. Percebo-te já instalado, amargurando. Meu tempo não te apresenta. Você é o meu coração sem jeito. A palavra que não domino. Só cuido de ti (ainda) porque em ti me busco, me encontro. Demoro."


Priscila Rôde

Nenhum comentário:

Postar um comentário

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...